Por Que o Ser Humano É Incuravelmente Religioso?

A religião é um fenômeno universal. Mas o que ela é, onde nasce e qual sua origem? Esse é um estudo teológico sobre a natureza, a sede e a origem da religião segundo as Escrituras.

ARTIGOS

Pastor Guedes

8/11/20266 min read

O Fenômeno que Ninguém Consegue Explicar — Nem Mesmo os Céticos

Existe algo estranho sobre o ser humano. Algo que nenhuma teoria evolutiva, nenhum argumento iluminista e nenhum programa de secularização conseguiu eliminar: a religiosidade.

Louis Berkhof, em sua Teologia Sistemática, afirma que o ser humano é "incuravelmente religioso". A religião não é um acidente cultural, um subproduto da evolução ou uma fase infantil da humanidade. É um fenômeno universal — presente em toda cultura, em toda época, em todo continente.

O que torna essa afirmação ainda mais poderosa é que mesmo os maiores oponentes da religião reconhecem sua força. Berkhof cita o filósofo cético David Hume, que — apesar de seu ceticismo radical — admitia que a religião exerce uma influência suprema sobre a vida dos indivíduos e das nações. Hume chegou a afirmar que pessoas inteiramente destituídas de religião estão "apenas alguns degraus afastadas dos brutos".

Pense no peso disso. Um dos maiores céticos da história reconhece que sem religião, o humano se desumaniza. A questão, portanto, não é se o homem é religioso — é o que é a religião, onde ela nasce e qual a sua origem.

O Que É a Religião? A Resposta que Só a Bíblia Dá

Berkhof é incisivo: apenas a Escritura capacita o homem a ter uma concepção correta da religião. Por quê? Porque a religião trata do relacionamento do homem com Deus — e é prerrogativa de Deus, não do homem, especificar a natureza desse relacionamento.

"A religião é uma relação espiritual com Deus, consciente e voluntária, que se expressa na vida como um todo e, particularmente, em atos de culto." (Berkhof, Teologia Sistemática)

Deus define os termos. O homem não inventa a religião — ele responde a ela. E essa resposta assume formas diferentes ao longo da revelação:

No Antigo Testamento, a religião é frequentemente descrita como o "temor do Senhor" — um sentimento de reverência profunda combinado com o receio de desobedecer. Não é medo paralisante; é uma reverência que molda toda a vida:

"O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução." (Provérbios 1:7)

"Eis que o temor do Senhor é a sabedoria; apartar-se do mal é o entendimento." (Jó 28:28)

No Novo Testamento, embora "piedade" e "temor do Senhor" continuem aparecendo, a palavra que domina é . A atitude religiosa do homem redimido é descrita como confiança — uma entrega consciente e voluntária a Deus:

"O justo viverá pela ." (Romanos 1:17, citando Habacuque 2:4)

A religião, portanto, não escraviza, ela liberta. Ela conduz o homem à mais elevada liberdade, porque o coloca na única relação para a qual foi criado. E qualquer forma de culto que seja contrária à Palavra de Deus é absolutamente proibida. A religião não é livre expressão — é resposta a uma revelação.

Onde a Religião Vive? A Sede no Coração

Aqui Berkhof faz um trabalho de precisão cirúrgica. Ele refuta três teorias que tentam localizar a religião em apenas uma parte do ser humano:

1. A religião no intelecto — Essa teoria reduz a religião em uma filosofia incompleta, um conjunto de ideias sobre Deus. Mas, a religião não é apenas pensamento, não é apenas um conjunto de ideias. Até os demônios também creem — e estremecem (Tiago 2:19).

2. A religião nos sentimentos — Já essa teoria, reduz a religião a um sentimento de dependência, uma emoção vaga de estar diante do transcendente. Schleiermacher, por exemplo, definiu religião como "sentimento de dependência absoluta". O problema: Você não pode basear nada tão estrutural como a religião, em sentimentos humanos confusos.

3. A religião na vontade —A última teoria, transforma a religião em mera moralidade prática, um código de conduta. Mas, a religião não é comportamentalismo. Os fariseus tinham moralidade rigorosa e, mesmo assim, eram chamados de "sepulcros caiados" (Mateus 23:27).

A visão bíblica correta: a religião está sediada no coração. E quando a Bíblia fala de coração, não está falando de emoção romântica — está falando do centro da vida moral e espiritual do homem. O coração é o núcleo, a fonte de onde tudo mais flui:

"Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." (Provérbios 4:23)

"Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento." (Mateus 22:37)

A religião está radicada na imagem de Deus no homem — que é central e não periférica. Por isso, ela envolve o ser inteiro: intelecto, sentimentos e vontade. Você não pensa Deus sem sentir. Você não sente Deus sem agir. Você não age para Deus sem pensar. A religião é integral porque a imagem de Deus é integral.

De Onde Vem a Religião? Refutando as Teorias Naturalistas

Berkhof então confronta a questão mais fundamental: de onde a religião se originou?

Influenciados pela teoria da evolução, muitos pressupõem que o homem evoluiu de um ser irreligioso para um ser religioso. Várias teorias naturalistas surgem:

  • Astúcia de sacerdotes: a religião como instrumento de controle manipulador.

  • Culto fetichista: a religião nascendo da adoração de objetos.

  • Culto aos espíritos: a religião originando do medo dos ancestrais.

  • Culto à natureza: a religião como tentativa de explicar fenômenos naturais.

  • Evolução da magia: a religião como um desenvolvimento a partir de práticas mágicas.

Berkhof critica todas essas teorias com três argumentos devastadores:

Primeiro, todas partem de uma pressuposição puramente naturalística — ou seja, assumem de antemão que Deus não existe e que a religião precisa ser explicada sem Ele. Isso não é ciência; é preconceito filosófico.

Segundo, todas assumem que a forma mais baixa de religião é a mais antiga. Ou seja, pressupõem que o homem começou primitivo e foi se desenvolvendo. Mas isso ignora completamente a possibilidade de deterioração religiosa — a ideia de que o homem pode ter começado com uma revelação clara de Deus e degenerou para o animismo e o fetichismo. Na verdade, é exatamente isso que Romanos 1 descreve:

"Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis." (Romanos 1:21-23)

A Bíblia não diz que o homem evoluiu da ignorância religiosa para a verdade. Diz que o homem tinha a verdade e a trocou pela mentira.

Terceiro, um "homem irreligioso" primordial nunca foi descoberto. Não existe na história da humanidade uma cultura, um povo ou uma civilização totalmente destituída de religião. Se a religião fosse um acidente evolutivo, deveria haver sociedades sem ela. Mas não há. A religião é universal porque a imagem de Deus é universal.

A Origem Verdadeira: Três Pressupostos Bíblicos

Berkhof então apresenta a explicação correta, que parte de três pressupostos:

1. Deus existe. Religião sem Deus é inadmissível. Não há religião sem um objeto de adoração — e esse objeto é Deus, não uma projeção psicológica.

2. Deus se revela. O homem não pode descobrir Deus por si mesmo. Deus Se dá a conhecer, e essa auto-revelação determina o culto que Lhe é agradável:

"Deus, tendo outrora falado muitas vezes e de muitos modos aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho." (Hebreus 1:1-2)

3. Deus dotou o homem de capacidade para receber essa revelação. A religião está fundamentada na própria natureza do homem. Criado à imagem de Deus, o homem possui uma capacidade natural para receber e apreciar a auto-revelação divina:

"Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança." (Gênesis 1:26)

"Porque as suas qualidades invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente percebidas por meio das coisas que foram criadas." (Romanos 1:20)

A religião não é invenção humana. É resposta humana a uma iniciativa divina. Deus fala; o homem — porque foi criado com capacidade para ouvir — responde. É por isso que a religiosidade é universal: não porque o homem inventou Deus, mas porque Deus se revelou ao homem.

Conclusão: A Religião Que Liberta

A religião não é uma muleta para os fracos, nem um subproduto evolutivo, nem uma ferramenta de controle. Ela é a resposta do coração humano à auto-revelação de Deus — radicada na imagem divina, expressa no ser inteiro e definida pelos termos do próprio Criador.

Berkhof nos lembra que a religião, longe de escravizar, conduz à mais elevada liberdade. O homem é mais livre quando está na relação para a qual foi criado. E essa relação não é genérica — é pessoal, consciente, voluntária e se expressa em atos de culto que agradam a Deus.

O ser humano é incuravelmente religioso porque foi incuravelmente criado à imagem de Deus. A questão não é se você é religioso. A questão é: a sua religião é resposta à revelação de Deus — ou invenção do seu próprio coração idólatra?

"Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo; antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá." (Isaías 43:10).